quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. (…) Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
Caio Fernando Abreu.

sábado, 21 de janeiro de 2012

(Conto) O dia em que os mortos podem retornar.

A lua estampava o imenso céu estrelado, tomando espaço para o brilho mais intenso do mundo. A noite em que os seres mortos poderiam renascer e, talvez, pudessem brilhar como a estrela mais estridente que pudesse existir. 
Nessa noite, eles todos existiam em corpo e alma. 
Doces classificavam as casas e as criaturas brilhavam durante a noite transparente. O mundo transformava-se em um imenso apontador azul, salpicado por terrenos esverdeados. Terras frágeis. Os ratos corriam para suas tocas, em busca da comida escondida e térrea, distante da vizinhança assombrada. 
Nessa época, as flores tornavam-se laranjas contrapondo as cores do outono e revertendo as abóboras mascaradas. As casas investiam em detalhes luxuosos e assustadores, junto com as velas, que iluminavam as calçadas. Os postes apagados e as moscas sem lugar para proliferar-se. Era demais uma noite como aquelas.
Bruxas disfarçavam-se de estrela-cadente, enquanto voavam pelo imenso céu, dando gargalhadas e jogando substâncias de suas iguarias. Caldeirões abriam espaço dentre todas as muambas expostas nas cabanas de palha, reforçadas por pilhares. 
Aquela não era uma noite qualquer, naquele dia, as bruxas saiam de suas tocas. Seus dentes podres e suas verrugas na ponta do nariz reto e comprido podiam brilhar na luz do luar. Eram bruxas sem coração e risadas em um pulmão, seco e vazio. 
Leves respingos afundavam sobre as vestes de Cassandra, o chapéu pontudo cobria-lhe metade da face e suas botas de fivela roxa afundava-se na lama – que grudara-se no tecido, dificultando a corrida pela ravina molhada. A bruma subia-se dentre a neblina e a brisa gélida invadia a face nua da moça incomum.
Risadas a seguiam, juntamente com passos pesados e faces destroçadas. Os braços cegueiros, desprezos do tronco, balançavam em constante sintonia com a corrida arfante.
A cabeça de Cassandra rodava e seus pés calosos insistiam em derramar-se naquela lama e desfrutar do pecado, ser queimada viva diante de uma fuga. Seus pés sobrevoavam o local, dito assim que sua leveza depois de adquirir a magia negra iria tornar-se leve, assim como seu corpo magricelo – inferior ao peso de uma bíblia gigante. 
Um corvo negro tomou conta do local embaçado, pousando suas pequenas garras ao tronco musgo de uma árvore centenária à frente. Suas asas batiam três vezes mais do que as passadas largas da mulher albina, a plumagem descia sorrateira sob as mesmas penas que a seguiam.
As lágrimas da deusa tocavam os lábios carnudos e secos de Cassandra. Suas vestes úmidas, seus olhos cegos e seus pés escorregadios faziam-na desistir de sua vida. Seus ouvidos clamavam pelo sabor da chama tocando a tez da ruiva. As cabeças contorcendo-se e um pescoço quebrado. Era um conjunto a ser traçado.
Os cachos bronzeados pararam de tremer e a brisa cessou. A neblina ainda inundava o local, mas, por instinto, a pequena mulher enfiou-se por detrás da árvore centenária. Abaixo do mundo; abaixo do santo corvo destroçado. 
Ela escondia-se do universo, trazendo seu livro de magia abaixo dos braços. 
Os passos pesados e o aroma da chama precipitavam-se ao passar ao lado da mulher. Sua respiração diminuiu, obrigava-se a calar-se dentro do abismo da morte serena. Oscilava ao ver a mesma passar ao seu redor. Puxou o pouco de pele de sapo que lhe restou dentro do bolso das vestes e mastigou, parecia que aquilo era apenas mais um doce no mundo real – aquele em que humanos ainda podiam existir.
Os passos cessaram e a voz gritante calou-se em vão, o silencio tomava conta do local e, assim, Cassandra poderia deliciar-se do descanso da árvore aposentada. Mas, não. Apoiou-se no tronco em que o corvo salpicava e ergueu os braços, revirando as imensas páginas do livro de veludo – descrito por páginas soltas e suspiros estranhos.
— Mostre-me a resposta. Diga-me o que é o mundo, trago-lhe lembranças de uma vida angustiada. Sigo-te pela eternidade, caçai-me com louvor e exultai-me claramente. — Os lábios de Cassandra apenas moviam-se, pois o som pouco se ouvia. Era um sussurro mudo, surdo. Após as palavras, o livro revirou-se em páginas e uma chuva das mesmas reinou-se no local, esparramou-se o ventre do livro ao chão enlameado. Porém, as folhas velhas continuavam as mesmas, sem sinais de locomoção. 
O livro parou de sussurrar e pousou uma das páginas nas mãos de Cassandra. Os dedos longos percorriam as palavras, como algo insistente, e as órbitas saltavam de seus olhos. Estava cautelosa e murmurava breves exclamações entre uma pausa e outra, dentre os parágrafos.
— “Execute os vivos; sobrevivam os mortos.” Um bom modo de deixar-me a resposta. — Zombou. Virando o livro de cabeça para baixo e sacudindo-o, parecia que havia um humano dentro do mesmo, aquele que poderia gritar e afundar sobre os tímpanos. A mulher revirou os olhos e desvirou o livro, acalmando-o. — Poderia, pelo menos, trazer-me a mensagem de como trazer uma foice em minhas mãos, assim seria um modo fácil de eliminá-los, não concorda? — Cassandra assoprou a página e o pouco de fuligem ainda inundava a capa. Ela não lia, apenas exaltava, muda, as coisas que lhe percorriam em mente. O livro tossiu.
— Você pediu uma resposta e eu lhe trouxe, minha senhora. Trago-lhe a melhor hipótese dentre a inscrição dos executados em meu mundo. Eliminai os que a tratam mal e traga-me os eternos palmos destroçados de um zumbi caricaturista. — Zombou. — Eu lhe dei a beleza de uma humana, fazei de mim um só e aceite minhas opções, sem pigarrear. 
— Farei o que pede, pois estou em apuros e a procura do mal. Não desejo as verrugas de volta à minha face. — No mesmo instante, Cassandra sentou-se ao chão e iniciou o processo que o livro exaltava.
A preparação era longa, mas podia-se dizer que era opção forte para um iniciante qualquer, não que Cassandra fosse iniciante neste mundo. Apenas podia-se dizer que o processo era de fácil acesso, o que complementava o bom e trazia-lhe o mal. 
Ao longe, podia-se ver a fumaça dentre as árvores distantes. A fogueira havia sido montada e o cheiro decomposto já invadia a narina da bruxa. Enquanto a chama queimava e os gritos oriundos eram ouvidos, Cassandra pode entender o significado de renascer os mortos. Podia-se dizer que aquele era um dos sonhos mais malévolos da mente perversa da ruiva. 
Tudo estava pronto, exceto por uma pequena amostra de carne humana ou sangue de um animal. Olhava ao redor e pouco se via o oriente e o cemitério encontrava-se infestado. Após tudo, pode-se lembrar. Cassandra nomeava-se um animal. Fincou os dentes pálidos na própria tez e arrancou-lhe um pedaço da mesma. Chupou seu sangue por um tempo e tampou a pele ao pequeno caldeirão borbulhante. O sangue pingava sem a noção do tempo e a pele soltava-se com o vapor. A fumaça aumentou e um estouro ergueu-se do chão. Estava pronto.
Um último grito sorrateiro foi solto dos galhos, o corvo saltou-se da árvore nu e morto. Suas penas brilhavam sobre o caldeirão e um sorriso foi solto aos lábios de Cassandra. A brisa dançou com seu cabelo e pode-se ouvir os sussurros de salvação soltos pelas bruxas em Salém. 
Cheiro de terra úmida e semi cavada invadia sua narina frágil aos sabores e ao aroma. Cravou os lábios em sua pele, ainda pingando, e explorou os locais com sua língua áspera. Sentia-se masoquista em pensamento, mas aquele era um motivo para estar feliz. Talvez o mundo morresse e os mutantes reinassem.


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A preparação era longa, vivia-se de pão e água. Inchava-se por dentro e encontrava uma remoção eterna em seu coração de vidro, que ainda podia bater com total sintonia ao amar de um campeão. Seus olhos arroxeados, marcados pelo sofrimento da perda, ainda podiam reinar durante o tempo mal escrito. A lembrança lhe socava a cabeça, trazendo o passado de volta ao presente. 
Sentava-se na calçada e admirava o tempo passar. Talvez o tempo pudesse voar de seu relógio e a noite crescer em vão, mas sabia-se que nada era relativo ao que sentia. A bola poderia bater em sua cabeça diversas vezes, os carros poderiam buzinar e, até mesmo, os colegas poderiam pular em sua frente, zoando-a ou chamar sua atenção com algo banal, mas ela não poderia mover-se. Estava em um mundo distante e vazio. Gélido. Seus pulmões ardiam e o frio queimava-lhe a tez. Ela pensava nas desgraças e podia imaginar o futuro. 
Uma estranha ainda mais estranha, absorvida pelo passado e presa dentre o medo. Agarrava-se à suas pernas, ciente de que em pensamento partia ao distante. Dispersa. As palavras não podiam tirá-la do transe. 
Ninguém poderia sentir o que ela sentia, era impossível. Apenas quem perdeu alguém poderia ter o sentimento de aperto, no qual a corroia por dentro.
O abraço rompeu-se, as palavras confortantes calaram-se e as fotos tornaram-se transparentes, depois de um ano, o mundo desabou e as datas especiais criaram vínculo com as emoções. As folhas do outono trocaram de face, renovando suas forças e crescendo com o caule do sofrer.
O mundo calou-se e os eixos romperam-se. Uma criança com a dor do perder, era monótono a vida entre uma cama e uma calçada cheia de pedregulhos do passado.
— Traga-me o guerreiro. Não me importo que ele possua cicatrizes, pois deles eu posso servir-me e sarar-me. Apenas peço que o traga em vida, pois do resto eu me satisfaço sozinha. Tenho o poder da cura, mas não possuo o poder da vida, peço que tudo se desfaça em meus pés e ele retorne ao presente. — Falava mansa e suas órbitas estavam em chama, relatavam o momento em que tudo era o nada e que ele podia satisfazê-la. A dor a possuía, mas a dor do ódio. — Levem todos e deixe-o. 
Um silêncio tomou conta do local, apenas os murmúrios podiam ser ouvidos. Até então. Um baque tomou a rua, agora deserta, e uma luz violeta brilhou por detrás do arbusto. Cassandra acordou de seus sonhos e desvirou os olhos, trazendo as órbitas negras de volta ao presente. Apoiou-se nas pedras e levantou-se, ainda encarando o vazio, a luz brilhante, a única que ainda podia iluminar sua visão dentre o breu que se erguia ao redor.
Os passos errantes eram seguidos, um atrás do outro. Sua visão tremia, mas um sinal poderia ergue-se. E se fosse ele? Poderia sorrir?
Adotou a coragem e continuou em passos mais leves, mas ainda errantes. Seria uma briga com a vida, algo oposto ao presente. Preferia seguir em frente ao voltar aos seus passos calados e, agora, distantes de novo. A cada passo podia-se ver as gotículas de preocupação brotarem em sua testa, e sempre que andava cautelosa a luz irradiava ao local ainda mais. Apenas mais uns passos e estaria ali, encarando o ser que poderia aguardá-la e arrancar sua pele por inteira, deixando seus órgãos nus. 
Uma explosão ergueu-se e tudo se apagou. Apenas um livro devorou-a por inteira, voltando páginas e mais páginas, demonstrando o passado e nunca mais a deixando voltar ao futuro.
Queria crescer, mas era impossível se dissessem que nessas décadas, de hoje em dia, ela poderia ter mais de mil anos, enquanto no futuro ela tinha apenas onze anos. Era estranho, assim como ela era. Um pedido distante poderia transformá-la em uma trajetória errante do mundo. Aquela em que, na Idade Média, era julgada pelo mundo e queimada no fogo. 
Ela teve seu pai de volta, um morto-vivo. Porém, não se reencontraram. Ele ficou no futuro e ela foi ao passado, brincar de bruxa sedentária. Horrorosa e com todos os seus desejos em um livro encantado – o mesmo que a trouxe ao passado.
A lua já estava a iluminar o céu e uma das estrelas pôde brilhar ainda mais do que antes, o dia trinta e um de outubro foi marcado por uma pata de tigre, mansa. Pintada com a mancha e trazida ao passado. As lágrimas tiraram a sede que lhe servia ao pai. Podia sorrir, por enquanto.


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— Dizem que o mundo, ao retornar ao passado, tornava-se melhor e mais bonito. Porém, não vejo algo bonito neste lugar distante. É algo vazio. Apenas meu coração irritado ainda serve-me de consolo, a única coisa boa que ainda pertence a esse mundo. O órgão ao qual foi costurando, com agulha, enquanto eu ainda podia chorar. Estou seca em lágrimas e o ódio penetra-me. A magia absorveu-me e a cura agora me serve ao mal. Um demônio em corpo humano, destacado pela vingança e pelo ódio. A vida aqui é um abismo, no qual só eu posso sobreviver. Tenho a chave do mundo e, assim que eu voltar, trarei a morte e arcaram com as consequências de meu pai. Aquele que vocês mataram, humanos ridículos. Tornar-me-ei a torturá-los, pois terei o coração que hoje lhes servem. A vida não penetrará mais em você. — Murmurava quieta, enquanto torcia os punhos, pronta a apunhalar alguém e socar à morte. Sentada ao topo de uma montanha, encarando as cenas do fogo ardente.
O mundo ainda não acreditava em bruxas quando as frases foram ditas, as vidas foram ameaçadas por magia, mas nenhum ser poderia crer em um nós. Um grupo de cidadãs malévolas, criticas da névoa que absorvem os castelos do rei e sugam sua vida. 
Algumas décadas após vários testamentos e casos elevados de vítimas, casos sobrenaturais, não diriam nada se uma das humanas não tivessem pigarreado a palavra “bruxa” após um atentado. Talvez aquilo fosse apenas uma ofensa sem sentido, mas seria bom se a mulher realmente não fosse uma bruxa. Ela ficou irada e detonou a cidade por completo, desde então, todas as cidades vizinhas temam na busca por sinais das mesmas. Crêem que as mesmas fugiram para essas cidades, após várias ameaças e mortes em meio à praça pública. Ardendo ao fogo. Desde então, todos adquiriram essas leis infiéis.
Um tempo se passou e já foi possível ouvir os passos pesados e o tronco destrancar as fechaduras. Cassandra parou de rir, mas continuou sentada, olhando perplexa para a porta, com os punhos cruzados e unidos, balançando os dedos longos e brincando com as unhas vermelhas.
Um, dois e três. Quatro baques. Cinco, seis, sete... As trancas desfaziam-se. Oito... Quase lá. Nove... Pouco. Dez, um estrondo.
Cassandra pulou por cima de sua vassoura e deu um adeus debochado, seus olhos pregaram o chão e denunciavam sua distinção.
Ignorou todos os galhos acima e deliciou-se ao bater em um deles, chacoalhando os cabelos e quase derrubando-se da vassoura. A lua salpicava no imenso manto azul-escuro e logo ela pode saltar sobre o chão e começar a correr com suas próprias pernas.
Eu sabia seu futuro.
Ela comandará o mundo das bruxas e não existirá mais humanos. Será uma ressurreição da carne podre, amarga. Tudo será diferente e o mundo será o mesmo cinza de sempre, preenchido por pequenos rabiscos coloridos, impressos em uma folha de jornal.
Afinal, um gato sábio estilhaçado em uma janela e sobrevivendo dos mortos, enquanto ainda sabia do seu passado, é algo muito incomum. Seria impossível não saber o que lhe aguardava.
Lembrando que depois de todos os acontecimentos fiéis foram tirados ao dia trinta e um de outubro de todos os anos, trazendo à tona tudo que deveria ser traçado. Sabendo o destino de todos. E ai? Doces ou travessuras?
Meus olhos reviraram-se, deixando apenas um buraco branco e profundo. Era a noite dos mortos-vivos e Cassandra afagava meus pelos negros, olhávamos pela janela e nos deliciávamos com as cenas retóricas de zumbis, enquanto ainda elaborávamos planos para cruzar com o livro de feitiços. Quem será o próximo a presentear?
Incognição.
Um mundo de magia não está apenas em seus sonhos ou nas mãos de um mágico. Está em todos a sua volta. Encare-os e exerça sobre eles o bem mais precioso que tem sobre seu consciente. Escrever sobre a magia.
Palavras mudas são só palavras, mas quando estão juntas tornam-se o bem mais precioso que alguém já pode ter; o filho de um estéril.
Incognição.

Era só mais um, ou não.

Era diferente, estranho e totalmente bizarro. Sabe, era quase impossível dizer como aquele coração batia depois de tanta dor e tantos erros, mas continuava. Errando bastante, pelo visto. Ela não sabia mais o que fazer e nem quais rumos seguir, podia-se dizer que estava perdida em seus próprios passos, tropeçando nas próprias palavras. Conhecia muitos e desfazia-se da metade, apenas pelas futilidades do mundo em que cada um sabia que poderia estabelecer-se. Só que ela sempre estava ali, não ligava muito para aparências ou experiências, não guardava mágoas. Estava sempre ali para ajudar, mas nunca estavam para ajudá-la. Já havia acostumado-se.
Enfim, estava tudo tão normal. Até passar a contar os dias, os segundos e as drogas das horas mal dormidas. Deixara de acreditar em horas iguais, mas continuava a pensar nas horas irregulares se ele poderia estar pensando nela nesse momento. Mas... Que coisa mais imbecil, é óbvio que isso nunca aconteceria. Garota com o coração errado, essa. Sabe, pra ela era tudo só amizade, até começarem a se envolver nessa tal amizade, mas apesar de tudo talvez ela desejasse beijar aqueles lábios. Ai, tire isso de sua cabeça. Ela ainda o vê apenas como amigo, mas há aquele medo de perder-se na tentação, sabendo ainda que irá se ferrar no fim.
Não estava apaixonada, mas sentia algo diferente. Não era como todos os outros, na verdade, quais seriam todos esses outros no meio dele? Ela o esnobava, mas o queria o mais perto possível. Teimava em seus diálogos de que não dariam certo juntos, por mais que o papo fosse tão elevado. Havia sempre motivos para nada dar certo. E, mais uma vez, ela não acreditou nas palavras que aquele garoto disse, afinal, era só mais um. Assim que ela aprendia a não se iludir, aprendia a viver. Confiava demais, se ferrava demais. Parecia até um ciclo bem fodido. Cadê minha vida?
"Em quem acreditar?" Ela sempre caia apenas nessa pergunta e já havia se cansado de tantas essas sem respostas. Não sabia mais o que fazer, por mais que tentasse.
Ela gosta de conversar com ele, mas teima muitas coisas entre esses papos, até mesmo como uma defesa de descobrir seus próprios pensamentos impulsivos. Ela tem medo de seu próprio eu, mas que ridículo. Ok, nem tanto. Há tantos prós entre tudo. Acabava sempre caindo nos pensamentos em que, uma hora, chegaria em decisões que nunca imaginaria pensar e assim descobria-se dispersa; pensando em tudo, no que ele dizia ou deixava de dizer. Era um bichinho muito curioso, ela. Se bem que não era apenas ela.
Queria saber apenas como tudo seria. Estranho, não? Sabe quando você só pensa na pessoa como um amigo que pode, no máximo, chegar ao status de melhor amigo? Então. Mas não é bem assim, de vez enquanto me pego pensando em coisas que eu nunca imaginaria que pudesse pensar. Tudo sempre chegava ao assunto ele e pessoas teimavam em uma paixão, mas essa paixão não existia. Ou ela apenas tentava acreditar que não. Era ela com ele e ela sem ele. Uma vida um tanto esquisita, uma menina um tanto diferente; talvez pro lado ruim, talvez para o lado bom. Whatever. Para ela, não era normal ficar longe dele, por mais normal que fosse, em sua cabeça, ele era a única pessoa que existia no mundo. Dava vontade de rir quando ela contava essas coisas, imaginava ele em lugares impossíveis e desejava que ele estivesse ali para fazê-la rir e dizer um "vai tomar no cu". Hahaha. Que desejo mais... ela.
Não sentia-se tão bem perto de outros, qualquer coisa era motivo de pensar que ele poderia melhorar tudo. Sentimento de melhor amigo mesmo, talvez. Onde ela desejasse apenas aquele ombro para enxugar suas lágrimas. Um dos motivos maiores era o medo que ela possui. Ai, que medo mais ridicularizado esse.
Era como se ela esquecesse de tudo e todos quando estava com ele, algo que ela nunca havia sentido antes. Apertava o coração, mas não doía. Algo normal e muito anormal.
Ela gostava de quando ele tentava brigar com ela e não conseguia, das coisas que ele falava em relação à ela (mesmo quando ela não acreditava), gostava de fazê-lo repetir o que talvez não devesse, só para ouvir mais uma vez ele falando aquilo. Sabe, ele dava crise de risos para ela, mesmo quando falava sério. Ele tem um significado invisível para ela, no qual não tem noção do que possa ser. É bom quando ele liga pra ela, no horário mais inesperado e exatamente quando ela esquece que ele possa existir, um dos vários momentos. Mas ela tem medo de se machucar, novamente.
Nunca conseguia imaginar um "nós" entre ambos, era como algo que não se completava e ao mesmo tempo se completava demais.
Ela não acredita em nenhuma palavra que ele diz a seu respeito, mas mesmo assim gosta de ouvi-las, não sei se só por ouvir ou se é para imaginar que alguém pudesse pensar assim dela. Algo impossível. Ele muitas vezes a surpreendia, ela não sabia se acreditava ou não, preferia não acreditar, até mesmo em relação ao "ninguém nunca pensaria assim de mim, sou tão... inútil." Era sempre isso.
Era muito medo pra pouco ela. E pensar que antes não era assim, cadê aquela menina que todos conheceram? Forte que não ligava pra nada. É, cadê?
Talvez ela só quisesse um pouco mais de tempo. Que tempo? Tempo.
Incognição.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Escrever.

Os fios de luz invadiam o pequeno Café onde o que combinava agora eram apenas as palavras impostas aos teclados e o café marcado à mesa. O nervoso lhe invadia a mente e os sotaques britânicos invadiam sua mente inanimada. As palavras presas à garganta de certa forma que era incapacitada de pronunciá-las. Tudo era tão estranho; O mundo não era a Terra quando se tratava de velhos e belos escritores. Em sua mente as borboletas nadavam com escamas velozes e as baleias voavam com asas esperançosas. 
A caneta flopava ao seu escritório encaixando-se ao meio de velhas papeladas manchadas ao café que à acordava todas as vezes durante vários frutos de revoltas entre palavras soltas em sua mente; sem poder se expressar dentre o papel e a pena manchada. A estante bagunçada tornava à ter livros de sua autoria arrumados e diversos outros derrubados ao chão e marcados nas partes mais ferozes de seus pensamentos insanos.
O barulho dos carros e das buzinas estridentes despertavam-na a distração; as batidas de panelas e os gritos de pedidos permitiam-na que socasse sua mente tentando pensar. O som pesado que saia do rádio só trazia notícias exasperas e músicas sem a criatividade imposta aos pensamentos.

— Querida, porque insiste todos os dias em estar aqui? — A garçonete insistia em perguntar-lhe todos os dias, por mais que sempre recebesse a mesma resposta — Eu precisaria de um dom sobrenatural para poder expressar minhas ideias em um simples teclado, ainda mais nesse horário, só se vê o movimento.
— Eu escrevo. Escrevo a derrota de meus dias monótonos e os saqueares distantes de meus ouvidos, mas que mesmo assim consigo ouvir. Consigo pronunciar cada palavra dita em seus pensamentos em simples palavras, em simples discórdias ligadas ao nada.
— Acredito que seja difícil com esses barulhos horríveis, porque não escreve em outro lugar?
— Eu não preciso de outro lugar, me sinto presa a este. 
— Isso é bom?
— Depende. O que é o bom para você?
— O bom é aquilo que me agrada, aquilo que consigo fazer sem distrações, aquilo que se torna presente e distante. Tudo aquilo que está perto do que consigo.
— Então não é bom. É o horrível descrito como o bom. Somos marionetes ingratas que amam escrever, presas às palavras. Ao futuro de um bom escritor.
— Não entendo. — Pronunciou as palavras tão mal descritas que conseguia flopar sobre o nada.
— Ninguém nunca entende um escritor. Somos apenas almas indescritíveis, insensatas. Somos diferentes iguais. Somos o tudo e o nada. Somos o futuro do país e 
o presente do prazer. Somos apenas velhos escritores esquecidos por palavras sem prece.

Mais uma vez.

Ela estava ao seu lado e implorava-te aos prantos por um abraço, pelo seu abraço. Você foi frio e não reconheceu o sentimento de que um dia poderia não tê-la mais, tenta ser forte e mostrar-se invencível à suas decisões erradas. Ela apenas errou ao dizer que você não prestava e que você não era nada para ela – ela mentia e você não soube interpretá-la. Você nunca a entendeu, mas sempre a amou. Você queria perdoá-la, mas seu orgulho não permitiu. Chore. Agora. Você realmente não é nada. Agora o sangue do arrependimento escorre pelo corpo dela, o bilhete você nem teve coragem de ler, você deveria ter visto o quanto você valia para ela. O quanto você era o “tudo” dela, a perfeição dos olhos dela. Você era o único no qual ela disse que se mataria, o único que ela disse que nunca a magoaria. Você à decepcionou e o sorriso dela você não pode mais enxergar ainda mais com esses olhos amargos. Seus lábios tocaram os dela e apenas pequenas palavras puderam soar de seus lábios: 
— Je t'aime. 
Paris chorou.

Pequena Alice.


Cogumelos saltavam sob as flores murchas, a sábia lagarta azul recitava suas verdades à pequena Alice; que reclamava de seu tamanho e pela agravada perda em recitar poemas. Ela tanto desabafava e a lagarta apenas a inalar a fumaça de seu narguile. 
— Se queres crescer, minha cara, coma uma das partes deste cogumelo. Você poderá crescer ou diminuir ainda mais — e, com essas palavras finais, ela desapareceu.
Alice já sozinha tomou posse de um dos pedaços do cogumelo ao lado direito, mas ela diminuiu tanto que bateu sua cabeça em seus próprios pés. Em seguida experimenta o lado esquerdo e cresce de tal forma que atinge a copa de uma árvore onde estava a pousar um pombo que, assustado com o pescoço enorme dela, está determinado de que Alice é uma serpente que tem a intenção de comer os seus ovos. Alice tenta convencê-lo que é apenas uma menina e imediatamente come um segundo pedaço do cogumelo, retornando ao seu tamanho normal.

Alice se encontra perdida, sem o coelho para ajudá-la e os irmãos bobos haviam deixado-a solitária. Uma ave sobrevoa o local e repara em Alice; a pobre menina loira na qual a rainha citara o nome. Ela já se encontrava sob as garras da águia quando um chapéu acertou-a na cabeça e ela direcionou seu olhar para baixo, assustada, lá três pessoas acenavam para ela; O Chapeleiro Maluco com seu sorriso encantador pulando, a lebre de março a elevar as mãos à cabeça, desesperada, e o Coelho Branco mostrava-lhe as horas, apontando para o relógio. A mesa para o Chá estava preparada e Alice entre as garras da águia listrada.
 
O gramado era de um verde encantador, as flores eram brancas e três grandes cartas de baralho pintavam-na de vermelho e a suposta Rainha de Copas a acertá-los na cabeça. Alice se encontrava solta ao vento e pensou que poderia voar, mas não, caiu certamente em cima das rosas já pintadas de um vermelho sangue. 
— Cortem-na cabeça! — a voz aguda vinha da mulher com um cabeção, possuía uma coroa sob seus cabelos vermelhos e Alice não pode deixar de reparar que ela também vestia uma roupa combinando com o grandioso castelo.
Incognição; adaptação de Alice no País das Maravilhas – livro e filme.

Pecados.


Desde o início fomos massacrados – amassados – nossos destinos foram escritos à sangue e nossas canetas quebradas. Nossos deveres estavam arranhados com as unhas de quem desejou o seu mal, o barulho tornou-se irritante em sua mente. “Mate. Peque. Ore. Peça. Implore. Você será meu”. Essas palavras soavam harmoniosas aos meus ouvidos, alguém te quer e você nunca mais estará sozinho. Siga esse caminho, no final, você estará pendurado à cinco metros acima do chão, com uma corda em volta de seu pescoço, ardendo no inferno ao lado de quem sempre te quis e implorando, assim como estava escrito. Não chore, você sempre terá a presença dele ao seu lado, apenas sussurre em meus ouvidos a sua derrota. Agora você está com medo, mas aguardo um segundo para você cometê-lo. O ódio arde em meu coração. Eu matei e eu pequei. Eu não orei, não pedi. Mas agora estou aqui, implorando, mas implorando por mais sofrimento, mais cortes. Pelo prazer exercido sob suas mãos incansáveis. Estava cansado de seguir as palavras de quem eu merecia, e eu perdi. Os pecados são apenas as regras escritas entrelinhas de nossa assinatura pingada com nosso sangue, as regras de um jogo sem fim. Um jogo que você nunca sairá, nem mesmo sem alma. Mas agora, só resta você para saber qual o pecado deverá cumprir. Já sabe?
Incognição.

Observadores.

Bang! Bang! Splash.
As armas chocaram-se ao chão e o coração de John estava em suas mãos.
A história nunca mudará.
O ventre postiço de um homem continuaria postiço, até que provassem ao contrário ou o preconceito cessasse. Seria impossível que a vida pudesse prevalecer diante de tanto sofrimento exercido pela comunidade, a aflição de não poder mudar o mundo ou de não poder ser igual a todos ao seu redor.

— S-Stefan... — O homem de nome pronunciado desabou sobre o corpo do que o chamava e ele pode ver que o mesmo o ouvia. — Se você realmente me ama, não chore. Lembre-se de nossas noites vazias no qual apenas nossas mãos estavam unidas nesse meio de escuridão; dos momentos no qual rimos e choramos juntos; daqueles em que eu pude me lambuzar de sua felicidade e gargalhar por suas palhaçadas. Lembre-se desse sorriso envergonhado que te fazia corar. — Apontou para o sorriso fraco que mostrava um bom pedaço de dente sugado pelo sangue e pode-se ouvir os sussurros baixos e apreensivos de seu acompanhante com poucos ferimentos. — Ainda pode me ouvir? Stefan? — Era tão bom ouvir seu nome saindo dos lábios, antes belos e carnudos, daquele ser intacto e em contato com o chão úmido. O amor o preenchia de tal forma que não conseguia parar de chorar. Os olhos de John levantaram um pouco, com dificuldade, até encontrar os de Stefan e observar que ele ainda ouvia. — Diga-me que me ama e poderei partir em paz. Diga que não estarei sozinho e eu direi o mesmo para você. Diga o que eu posso ouvir. Diga o que é preciso sentir quando se ama e é diferente. Diga que você me teve com o orgulho e eu te direi que seus beijos calorosos, seus abraços acolhedores e suas noites ao meu lado foram muito mais que o orgulho de te ter comigo...
John não conseguiu mais falar, suas palavras soavam mudas ao ouvido de Stefan.
— Eu te amo, John. Minha vida está incompleta mesmo quando te vejo partindo. Orarei e pedirei aos céus para servirem-te uma mesa de café-da-manhã que possa lhe satisfazer.— Antes que John pudesse pronunciar uma se quer palavra, Stefan colocou um dedo sobre os lábios do homem, pedindo o descanso da voz do mesmo. — Com passas. Prometo-te e afirmo tudo o que me pediu e perguntou. Afirmo muito mais e acredito que sem você minha vida não será nada. Nada. Um vazio completo e sem o amor. —Pegou a mão direita de John e juntou-a a dele, elevando-as ao coração. — Sente meus coração batendo fraco e forte ao mesmo tempo? — John assentiu — O fraco demonstra a parte de mim que morre hoje, aquela na qual os seus sentimentos estavam nele e o fazia explodir. Quando partir, essa parte partirá ao meio e será apenas um órgão esquisito e incompleto. A outra parte que ainda bate é aquela onde ainda está a esperança de te ter ao meu lado, em qualquer circunstância. Essa nunca parará.
John deu um sorriso de lado, frágil e apetitoso. Stefan ligou seus lábios ao do parceiro que partia, dando um selo cauteloso e de fechamento. Deixando sua saliva guardada em alguma parte do ser gélido e, agora, sem vida.
— Você será ardente que aparecerá em minha janela em todo amanhecer, o vento frio que baterá em minha face e a lua cheia que brilhará todos os dias em meu céu estrelado. E quando eu não ver a chuva ou a lua, verei que você é apenas a estrela mais brilhante do céu. Aquela que nunca me abandona. Delicada e pequena, mas a única que sempre resta no céu de cor arco-íris.
Stefan sorriu e uma lágrima pode ser solta de seus olhos grandes e cor de amêndoa.
“Saiba, meu filho, que as últimas lágrimas nunca saram. Chorarás em todos os dias, pois é assim que John estará contigo. Entre as folhas que renovam-se no outono, o orvalho imposto no inverno, a chuva fina da primavera e o suor pleno de um dia de verão.” 
Incognição.

Prática.

Ela gritava, eu ria; ela implorava, eu era difícil; ela não dormia, eu a torturava. Apenas quero testar meus métodos pegos em pequenas páginas amassadas e agora jogadas no lixo, quero botá-los em prática. Não quero ser criativo, quero matar. Torturar e decapitar. Quero sentir na tez a harmonia que os outros sentem ao matar.
Meus olhos brilham, o ódio arde em mim, o jogo só está começando. 
— Cuide-se, minha querida amada.
O ferro agora prendia em suas pálpebras frágeis e ela nem conseguiu gritar. Arranque-as. Lá estava o lago ao meu lado, o céu brilhava como nunca e agora eu enxergava. “Deite-a de costas, imobilize-a, sua cabeça inclinada” dizia nas páginas que eu mesmo escrevera e todos jogaram ao lixo, como se meu trabalho fosse apenas isto.
Ela agora não tinha vida, suas vias respiratórias foram afogadas pela amargura de quem um dia a amou. Afogamento sem culpados. Levantei-me, pregos agora estavam estampados sob meus ossos quebrados, agora sorria com o sangue que escorria pela lateral de meus lábios, o sangue era sensato. 
Você não sabe o que sinto. Não sabe o que posso fazer. Apenas sinta o medo que corre em suas veias já sem vida. Seu sangue agora me serve e está sendo usado.
Incognição.

Trick or Treat?

Quero brincar. Quero torturar. Não quero doces. Eu possuo a travessura em meu subconsciente. Minha vida está transada com a linha de sangue inocente banhada ao ouro do diabo. Uso a caneta que meus pais usaram, a minha já rompeu-se. Escute-me, eu preciso de sangue ou morrerei, me matarei por você, mas possua essa promessa. Você terá tudo que mais deseja se escutar-me, você terá a vida de todos em sua mão e eu sei que você gosta disso. Eu te hipnotizo. Você matará aquela família. 
— Mas a festa não começou — a menina de cachos imperfeitos inocentemente comentou. 
— Logo começará. Suas travessuras não bastarão, sorria e faça tudo que eu mando... — era apenas mais uma ordem. 

“Trick or treat?”, sua cabeça estava contorcida e ela não podia fazer mais nada. Aquela família morreu e as únicas palavras que lembram-se são essas. O Halloween é o seu mundo da magia, é quando todos nós vamos ao seu mundo buscar-te e bater em sua porta. 
Nós somos vocês.
Cuidado! Eu não preciso de fantasias para assustar no Halloween, eu sou a morte. Eu não brinco. E nesta noite... Não grite ou nós o ouviremos.
Boa Sorte, Mortal.
Incognição.

(Amar)go.

O sol desfazia-se ao ocidente e a noite abria espaço sob longas cortiças escuras. O som suave dos pássaros agora soava amargo se desejássemos que sofressem assim como um coração sofre ao norte. Choraria ao dizer lindas palavras de amor se ainda fosse possível assim, gritaria até minha garganta estocar com o ódio do amor. Somos iguais por fora e diferentes por dentro, algo impossível que eu sei que posso acreditar. Somos o amor proibido cruzado pela dor de um sofrer interminável.
Seu corpo jazia ao dela, unidos pela dor de um interminável amor. Seu lábio tocava o dele assim como o oceano podia tocar o fundo do oriente, nós poderíamos chorar, mas apenas ela chorava. Seus braços encontravam-se envolta do dele e suas asas estava aos pedaços, partidas pelo mundo paralelo de seus olhos azuis-cobalto. Lágrimas flutuavam ao redor dos corpos e ela não poderia morrer mais uma vez. “Eu te amo”, dizia o bilhete amassado que ardia ao fogo da pequena lareira apagada que antes possuíra as mãos suadas de Louise. 
— Eu queria ter dito que não amava-te e que não faria de nada para cuidar de você. Eu estava errada. Eu não sou Deus e não poderia dizer nada disso sem machucar-te. Eu deveria ter dito essas palavras antes que fosse tarde demais, você sabe do meu segredo e eu não poderei estar com você agora, logo agora. Não chore, diga que me odeia, pois eu sou a errada em dizer que te amava mesmo sabendo do meu erro. Você não está mais comigo. Eu realmente te amo, John. — dizia entre soluços mórbidos, escassos.
Eu odiaria me arrepender assim, a linha vermelha de seu destino fora decapitada pelo ódio mortal e sua tez era o carvão, apenas.
Todos nós somos o sofrimento, somos seres nascidos para o sofrer de quem um dia talvez nos amou, somos seres desprovidos da verdade que lutam pelo fantasioso mundo de encantamento. Somos bonecos de panos; marionetes soltas por um cabo desnorteado. 
Incognição.

Apetitoso.

Meu sorriso estanca-se por minha face até hoje. Era bobo, mas era feliz. Tive a infância que poucos tiveram. Chorava muito, mas não por um alimento e sim por cortes bobos em meus joelhos. Eu sorria ao receber pequenos presentes de gratidão. Uma infância marcada por doces, desenhos, pipoca e muito amor. As crianças me amavam e até mesmo o adulto mais rabugento sedia a mim, brincava e sujava-me. Escorregava e pulava. Saboreava-me de bolachas. Minha barriga era redonda e recheada. 
Você pula. Eu choro. Você me quer. Eu choro. Você me morde. Eu choro. Você me empurra. Eu choro. Isso é um ciclo vicioso que só você não sabe.
Quando caia tinha quem me levantar e dizer que estava tudo bem. Quando eu chorava tinha quem limpar minhas lágrimas. Quando eu sorria tinha quem abrir um outro sorriso de contribuição. Quando eu sangrava tinha quem arrancar sua pele e tirar seu próprio sangue para favorecer-me. As pessoas se matam por mim. Nunca fui sozinho e disso você pode ter certeza. Mas eu sempre fui diferente e marcado pela infância. Eu não cresço.
Eu sou o chocolate. 
Incognição.

Distante.


Sua face era celestial, seus olhos amargos e seus lábios sem expressão. Seus cabelos presos a uma máscara mostravam-se um pouco à amostra – eram de um tom de bronze, gracioso. Sentada sob um dos trocos ocos de uma cerejeira pronta a gritar sua derrota, declarava guerra ao seu subconsciente. O vento encontrava-se suave, mas ainda conseguia balançar a pequena cerejeira frágil. Os olhos aparentemente esmeraldas transpareciam saciados entre os buracos de uma máscara surrada, os mesmos olhos brilhavam sob o sangue do animal exposto ao chão, massacrado. Pobre mulher-maravilha. Nesse momento, o tronco se destroçou ao chão e ela, em posição de uma boa predadora, segurava-se ao cordeiro. Louise não era vilã de histórias em quadrinho nem mesmo de desenhos animados ou de falas de filmes dublados e condecorados. Ela era real, assim como os demônios e os anjos. Não precisa de poderes para sobreviver, mas ainda assim possuía muitos. Causava o medo na mente humana de qualquer idiota barrado em boates ou de qualquer ninfomaníaco clamando pelo sexo em um motel surrado. Ela o exterminava durante um prazer. Seus lábios brilhavam sob o batom vermelho-vivo. Não precisa de uma identidade, mas a utiliza sob os mantos de quem um dia matou. Espere por uma boa ajuda em uma madrugada sem sol, chame-a pelo nome, mas você nunca a pegará.
Incognição.
O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo – numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior. 
Albert Einstein.